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TOD: quando o comportamento desafiador também revela sofrimento

Foto do escritor: Dárley Da Costa
Dárley Da Costa
28 de set.
4 min de leitura

Um olhar para a criança e para a família além da ideia de “falta de educação”.




“Ele faz isso porque quer.”

“É falta de limite.”

“Se fosse meu filho, não faria isso.”

Famílias que convivem com uma criança que apresenta comportamentos desafiadores provavelmente já ouviram alguma dessas frases.

Para quem observa de fora, pode parecer apenas uma criança que não obedece, questiona demais ou insiste em enfrentar os adultos. Dentro de casa, porém, a realidade pode ser muito mais complexa.

Quando os conflitos se tornam frequentes e intensos, pais e responsáveis podem chegar ao esgotamento sem saber mais como agir. É nesse contexto que algumas famílias chegam à investigação do Transtorno Opositivo Desafiador (TOD).


Nem toda criança que desafia tem TOD


Desobedecer, questionar regras, irritar-se e testar limites podem aparecer em diferentes momentos do desenvolvimento infantil. Por isso, uma criança não deve receber um diagnóstico de TOD simplesmente porque apresenta comportamentos considerados difíceis.

No TOD existe um padrão persistente de irritabilidade, comportamento questionador ou desafiante e, em alguns casos, atitudes vingativas. A avaliação considera fatores como duração, frequência, intensidade e o impacto desses comportamentos na vida e nas relações da criança.

Por isso, é importante evitar diagnósticos feitos a partir de episódios isolados.

Antes de existir um diagnóstico, existe uma criança com uma história, relações e uma maneira particular de experimentar o mundo.


Quando enxergamos somente o comportamento


Conviver diariamente com conflitos pode fazer com que os adultos comecem a interpretar praticamente todas as atitudes da criança como provocação.

Aos poucos, frases como “ele está fazendo isso para me irritar” ou “ela gosta de desafiar” podem se tornar frequentes.

É compreensível que isso aconteça quando uma família já está cansada. Mas existe uma diferença entre reconhecer um comportamento que precisa de limite e reduzir a criança àquilo que ela faz.

Talvez, além de perguntar “como faço essa criança obedecer?”, seja necessário acrescentar outra pergunta:

“O que está acontecendo com essa criança?”

Isso não significa justificar todos os comportamentos ou deixar de estabelecer limites. Significa compreender que um comportamento difícil também pode estar acompanhado de sofrimento.


Limite e afeto podem caminhar juntos


Crianças precisam de limites.

Precisam encontrar adultos capazes de sustentar regras, ajudá-las a lidar com frustrações e mostrar que nem todos os desejos poderão ser satisfeitos imediatamente.

Mas limite não precisa significar humilhação, ameaça ou uma disputa para descobrir quem tem mais força.

Quando cada situação se transforma em uma batalha, pode surgir um ciclo desgastante: a criança desafia, o adulto intensifica a resposta, a criança reage novamente e a relação começa a ser organizada pelo conflito.

O limite continua sendo necessário. O que não pode desaparecer é o vínculo.

Uma criança pode ouvir um “não” e continuar encontrando no adulto uma relação de cuidado e segurança.


O que a psicanálise pode acrescentar?


A psicanálise não substitui a avaliação diagnóstica e também não pretende estabelecer uma única causa para o TOD.

Seu olhar se volta para a singularidade de cada sujeito.

Duas crianças podem apresentar comportamentos semelhantes e possuir histórias completamente diferentes. Por isso, além de observar os sintomas, interessa compreender como aquela criança vive suas relações, como reage às frustrações e qual lugar ocupa na dinâmica familiar.

Podemos perguntar:

Como os conflitos acontecem dentro de casa?

O que costuma ocorrer antes das crises?

Como os adultos respondem?

Como essa criança experimenta os limites?

Essas perguntas não servem para encontrar culpados. Elas ajudam a ampliar a compreensão para além do comportamento que aparece.


E quem cuida dos pais?


Existe ainda uma parte dessa história que não deveria ser esquecida.

Conviver diariamente com conflitos intensos pode produzir cansaço, culpa, frustração e até a sensação de fracasso.

Alguns pais começam a se perguntar:

“Será que eu errei?”

“Será que não soube colocar limites?”

“Por que parece que nada do que faço funciona?”

Quando o adulto está emocionalmente esgotado, sustentar limites com tranquilidade também pode se tornar mais difícil.

Por isso, olhar para a criança não significa ignorar quem cuida dela.

Pais e responsáveis também podem precisar de um espaço onde possam falar sobre sentimentos que nem sempre conseguem admitir: raiva, medo, culpa, cansaço e a sensação de não estar dando conta.

Reconhecer esse sofrimento não significa culpabilizar os pais. Significa compreender que toda a família pode ser atravessada por aquilo que está acontecendo.


Quando procurar ajuda?


Quando comportamentos de oposição, irritabilidade e conflitos são frequentes, persistentes ou começam a causar prejuízos importantes na vida familiar, escolar ou social, é indicado buscar uma avaliação profissional.

O diagnóstico não deve ser construído a partir de um único comportamento.

É necessário considerar o desenvolvimento da criança, sua história, os diferentes ambientes em que vive e outras condições que possam estar relacionadas às manifestações apresentadas.

Em alguns casos, o acompanhamento pode envolver diferentes profissionais e também a participação da família.


Para além do diagnóstico


Uma criança que desafia constantemente pode despertar sentimentos muito intensos nas pessoas ao seu redor.

Mas quando toda a atenção fica concentrada apenas em fazê-la obedecer, corremos o risco de deixar de enxergar a criança por trás daquele comportamento.

Compreender não significa permitir tudo.

Significa não reduzir uma criança ao seu diagnóstico, às suas crises ou aos momentos mais difíceis da sua história.

Talvez, então, outra pergunta possa surgir:

Além do comportamento que tanto nos preocupa, o que essa criança está precisando que ainda não conseguimos compreender?


E se essa realidade faz parte da sua família?


Em meio às necessidades da criança, pais e cuidadores também podem precisar de um espaço para falar sobre o que estão vivendo.

A psicanálise pode oferecer um espaço de escuta para compreender sentimentos, relações e o modo como essa experiência atravessa também a história de quem cuida — sem transformar esse processo em uma busca por culpados.


Dárley da Costa | Psicanalista Clínica

Atendimento psicanalítico online.

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Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5. ed., texto revisado. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022.

LIMA, L. R.; PIRES, M. M. L. O. Esse tal “opositor desafiador”: aquele a quem não pode faltar. Correio da APPOA, n. 292, 2019.


 
 
 

1 comentário


Aldo Silva da Costa
Aldo Silva da Costa
28 de set.

Muito bem escrito!

Meus parabéns pelo artigo!

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