top of page

Parentificação: quando a criança aprende cedo demais a cuidar dos adultos

Foto do escritor: Dárley Da Costa
Dárley Da Costa
21 de set.
5 min de leitura
Imagem ilustrativa, gerada por Inteligência Artificial.
Imagem ilustrativa, gerada por Inteligência Artificial.

Quando filhos assumem responsabilidades que ultrapassam seu lugar na família, essa experiência pode deixar marcas que continuam presentes na vida adulta.


Algumas pessoas se acostumaram tão cedo a cuidar dos outros que, na vida adulta, quase não percebem o quanto isso lhes custa.

São pessoas que costumam estar disponíveis quando alguém precisa, sentem-se responsáveis por resolver problemas e têm dificuldade de pedir ajuda. Muitas vezes, essa postura é reconhecida como maturidade, responsabilidade ou força.

Mas, em algumas histórias, essa forma de funcionar começou muito antes da vida adulta.

Há crianças que, por diferentes circunstâncias familiares, passam a assumir responsabilidades práticas ou emocionais que seriam próprias dos adultos. Quando ocorre essa inversão de lugares, podemos estar diante de um fenômeno conhecido como parentificação.


O que é parentificação?


O conceito de parentificação descreve situações em que a criança ou o adolescente assume funções e responsabilidades que ultrapassam aquilo que seria esperado para sua idade e posição dentro da família.

Isso pode acontecer de maneira prática. Por exemplo, quando uma criança passa a assumir de forma recorrente responsabilidades excessivas pela casa, pelos irmãos ou por questões que deveriam estar sob o cuidado dos adultos.

Mas a parentificação também pode acontecer no campo emocional — e, nesse caso, nem sempre é facilmente percebida.

Uma filha pode se tornar a principal confidente da mãe, ouvir problemas conjugais, tentar mediar conflitos familiares ou sentir que precisa estar emocionalmente disponível para que a mãe fique bem.

Nessas situações, algo importante se modifica na relação: a criança que também precisava ser cuidada passa a ocupar, de alguma maneira, o lugar de quem cuida.


Toda criança que ajuda a família foi parentificada?

Não.

Participar da rotina familiar e assumir responsabilidades compatíveis com a idade pode ser saudável e contribuir para o desenvolvimento da autonomia.

Por isso, não podemos utilizar o termo parentificação simplesmente porque uma criança ajudava em casa, cuidava eventualmente de um irmão ou demonstrava preocupação com os pais.

É preciso considerar a frequência, a intensidade e, principalmente, o lugar que aquela criança passou a ocupar dentro da dinâmica familiar.

Uma questão importante é observar se havia espaço para que ela também pudesse depender dos adultos, demonstrar fragilidade, pedir ajuda e ter suas próprias necessidades acolhidas.

Quando uma criança percebe que precisa esconder suas necessidades porque os adultos já têm problemas demais, por exemplo, ela pode aprender muito cedo a funcionar de maneira extremamente autônoma.

Por fora, pode parecer apenas uma criança madura.

Por dentro, a experiência pode ser mais complexa.


“Eu sempre fui muito madura para a minha idade”


Essa é uma frase que merece ser escutada com cuidado.

Existem crianças que realmente desenvolvem determinadas habilidades mais cedo. Porém, em algumas histórias, aquilo que foi chamado de “maturidade” também pode ter sido uma necessidade de adaptação.

A criança percebe o ambiente ao seu redor e encontra formas de permanecer nele.

Se entende que a mãe está emocionalmente fragilizada, pode tentar não preocupá-la.

Se percebe muitos conflitos dentro de casa, pode tornar-se mediadora.

Se sente que os adultos estão sobrecarregados, pode aprender a resolver suas dificuldades sozinha.

Nada disso precisa acontecer por meio de uma decisão consciente. A criança simplesmente encontra maneiras de lidar com as relações das quais depende.

A questão é que algumas dessas formas de funcionamento podem continuar presentes mesmo quando ela já não é mais aquela criança.


O que pode permanecer na vida adulta?


Não existe uma consequência única da parentificação. Cada pessoa constrói sua história de maneira singular, e seria inadequado afirmar que todos que viveram essa experiência apresentarão as mesmas dificuldades.

Ainda assim, olhar para o passado pode ajudar algumas pessoas a compreender posições que continuam ocupando nas relações atuais.

Uma mulher pode perceber, por exemplo, que está quase sempre no lugar de quem sustenta emocionalmente os outros. Pode ter facilidade para oferecer ajuda, mas sentir desconforto quando precisa recebê-la. Pode assumir responsabilidades que não são suas ou experimentar culpa quando estabelece um limite.

Em alguns relacionamentos, pode surgir a sensação de que cuidar do outro não é apenas uma escolha, mas uma obrigação.

E é justamente nesse ponto que uma pergunta pode se tornar importante:

Por que me sinto responsável pelo bem-estar de todos ao meu redor?

A resposta não estará necessariamente na parentificação. Mas, quando existe uma história de inversão de responsabilidades na infância, essa experiência merece ser considerada.


Quando cuidar deixa de ser uma escolha


Cuidar faz parte dos nossos vínculos. Não há nada de problemático em se preocupar, oferecer ajuda ou estar presente para quem amamos.

A diferença está em poder escolher cuidar sem sentir que a existência do outro depende de nós.

Quando estabelecer um limite provoca uma culpa intensa, quando descansar parece errado porque alguém precisa de ajuda ou quando dizer “não posso” é vivido como abandono, talvez seja importante compreender o que está envolvido nessa sensação de responsabilidade.

Algumas pessoas aprenderam tão bem a perceber as necessidades dos outros que encontram dificuldade quando precisam responder a uma pergunta aparentemente simples:

“E você, do que precisa?”

Olhar para isso não significa tornar-se indiferente ou deixar de cuidar de quem se ama. Significa reconhecer que uma relação também pode comportar reciprocidade, limites e a possibilidade de receber cuidado.


Compreender não significa procurar culpados


Ao falar sobre experiências da infância, existe sempre o risco de transformar a reflexão em uma busca por culpados.

Esse não é o objetivo.

Pais e mães também possuem suas próprias histórias e podem ter atravessado perdas, separações, dificuldades financeiras, adoecimento, ausência de rede de apoio e muitas outras situações. Há ainda formas de relacionamento que podem se repetir entre gerações sem que exista consciência dessa repetição.

Reconhecer que uma criança ocupou um lugar que não deveria ter sido seu não exige negar a complexidade da história familiar.

É possível compreender as circunstâncias dos adultos e, ao mesmo tempo, reconhecer aquilo que foi difícil para a criança.

Na vida adulta, talvez a questão mais importante deixe de ser “de quem foi a culpa?” e passe a ser:

“O que daquele lugar que ocupei ainda permanece nas minhas relações?”


Quando não é mais necessário carregar tudo


Uma das possibilidades abertas pelo processo de análise é justamente reconhecer posições que se tornaram tão familiares que parecem fazer parte da personalidade.

“Eu sou assim.”

“Eu sempre resolvo tudo.”

“Não consigo depender de ninguém.”

“Prefiro fazer sozinha.”

Por trás dessas afirmações podem existir histórias muito diferentes.

Compreender essas histórias não significa apagar o passado ou abandonar características que também se tornaram recursos importantes. Significa ampliar a possibilidade de escolha.

Talvez você continue sendo alguém que cuida.

Mas pode descobrir que também pode pedir ajuda.

Pode estar disponível sem precisar resolver tudo.

Pode amar alguém sem assumir inteira responsabilidade por seu sofrimento.

E pode reconhecer que estabelecer um limite não significa abandonar quem está do outro lado.

Às vezes, compreender por que aprendemos tão cedo a cuidar de todos é também uma maneira de começar a perceber que nós não precisamos permanecer sempre no mesmo lugar.


E se você se reconheceu neste texto?


Se você percebe que está frequentemente no lugar de quem precisa ser forte, cuidar, resolver ou sustentar emocionalmente as pessoas ao seu redor, compreender como esse lugar foi construído pode ser um passo importante.

O processo psicanalítico oferece um espaço de escuta para olhar para sua história e para a maneira como experiências anteriores continuam atravessando seus vínculos no presente.


Dárley da Costa | Psicanalista Clínica

Atendimento psicanalítico online.


🌐 Conheça meu trabalho e saiba como agendar uma sessão


Referência

BOSZORMENYI-NAGY, Ivan; SPARK, Geraldine M. Invisible Loyalties: Reciprocity in Intergenerational Family Therapy. New York: Harper & Row, 1973.

 
 
 

Comentários


bottom of page