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Por que você sente que nunca é boa o suficiente?

Foto do escritor: Dárley Da Costa
Dárley Da Costa
5 de out.
5 min de leitura

A sensação de nunca corresponder às expectativas pode não ser apenas um traço da sua personalidade, mas uma forma de olhar para si construída ao longo da vida.


Você termina algo importante e, em vez de sentir satisfação, pensa no que poderia ter feito melhor.

Recebe um elogio, agradece, mas por dentro não acredita muito nele. Quando alguém reconhece alguma qualidade sua, rapidamente você encontra uma explicação para diminuir aquilo que fez: “nem foi tudo isso”, “qualquer pessoa conseguiria”, “eu poderia ter feito melhor”.

E assim, mesmo quando existem motivos para se sentir satisfeita consigo, permanece uma impressão difícil de explicar: a de que ainda falta alguma coisa para você ser boa o suficiente.

Essa sensação não aparece da mesma maneira para todas as pessoas. Em algumas histórias, ela está ligada à necessidade de corresponder, de acertar, de não decepcionar. Em outras, aparece na comparação constante, na dificuldade de reconhecer as próprias conquistas ou na cobrança para dar conta de tudo.

Por isso, talvez a pergunta não seja apenas “por que sou tão exigente comigo?”, mas também: quando eu aprendi a me olhar dessa maneira?


A forma como você se enxerga também tem uma história


Nós não construímos sozinhos a imagem que temos de nós mesmos.

Desde muito cedo, somos atravessados pelo olhar, pelas palavras, pelas expectativas e pelas respostas das pessoas que ocupam lugares importantes em nossa vida. É nesse encontro com o outro que começamos, pouco a pouco, a construir referências sobre quem somos e também sobre quem deveríamos ser.

Uma criança pode perceber, por exemplo, que recebe mais reconhecimento quando acerta, quando não dá trabalho, quando cuida dos outros ou quando corresponde ao que esperam dela.

Isso não significa que alguém tenha dito diretamente: “Você só será amada se fizer tudo certo.”

Muitas dessas mensagens nunca são pronunciadas dessa forma.

Elas podem ser construídas na experiência.

E aquilo que um dia esteve relacionado ao olhar do outro pode, com o tempo, passar a fazer parte da maneira como a própria pessoa se olha.


Quando a cobrança já não precisa vir de fora

Na vida adulta, talvez ninguém precise mais dizer que você deveria fazer melhor.

Você mesma diz.

Pode existir uma cobrança tão incorporada que ela passa a parecer parte da personalidade:

“Eu sempre fui assim.”

Mas vale perguntar de onde vem essa voz que avalia, compara e quase nunca se satisfaz.

Na psicanálise, Freud nos ajuda a compreender que construímos ideais a partir das nossas relações e identificações. Ao longo da vida, formamos referências daquilo que consideramos desejável, correto ou esperado de nós.

Ter ideais não é, por si só, um problema. Eles também participam das nossas escolhas, projetos e desejos.

O sofrimento pode aparecer quando a distância entre quem você é e quem acredita que deveria ser se transforma em uma cobrança permanente.

Você consegue algo, mas deveria ter conseguido mais.

Cuida da família, mas acha que poderia cuidar melhor.

Trabalha, resolve problemas, tenta estar disponível para todos e, ainda assim, termina o dia com a impressão de que deixou alguma coisa a desejar.

A régua muda de lugar cada vez que você se aproxima dela.


Por que o reconhecimento dos outros nem sempre resolve?


É comum imaginar que essa sensação desapareceria se houvesse mais reconhecimento.

Às vezes, ele chega.

E mesmo assim não basta.

Alguém diz que você foi bem e você pensa que poderia ter sido melhor. Elogiam sua aparência e você imediatamente encontra um defeito. Reconhecem seu esforço e você responde que apenas fez o que precisava ser feito.

Isso acontece porque nem sempre estamos diante de uma falta de elogios.

Existe também uma forma de olhar para si.

Por isso, nenhuma quantidade de aprovação externa consegue garantir, sozinha, uma sensação interna de suficiência. O outro pode reconhecer algo que você ainda encontra dificuldade para reconhecer em si.

É justamente aqui que este tema se diferencia da simples necessidade de aprovação: não se trata somente de querer que o outro diga que você é suficiente. Às vezes, mesmo quando ele diz, alguma coisa dentro de você continua respondendo que não é.


“Então a culpa é dos meus pais?”

Não.

Compreender a influência das primeiras relações não significa procurar um culpado pela maneira como você se sente hoje.

Pais também carregam suas histórias, expectativas, medos, limites e formas de amar. Além disso, nossa constituição psíquica não pode ser explicada por uma única relação ou acontecimento.

A psicanálise não trabalha com uma equação simples na qual determinada experiência na infância necessariamente produzirá determinado sofrimento na vida adulta.

O que interessa é compreender como cada pessoa viveu e significou a própria história.

Duas pessoas podem atravessar experiências semelhantes e construir respostas completamente diferentes.

Por isso, em vez de procurar culpados, talvez seja mais importante começar a reconhecer as marcas.


De quem é a medida que você usa para avaliar a própria vida?


Quando você pensa que deveria ser uma mãe melhor, uma profissional melhor, uma esposa melhor, uma filha melhor ou simplesmente uma mulher melhor, com quem está se comparando?

Qual é a mulher que você acredita que deveria conseguir ser?

Ela pode falhar?

Pode descansar?

Pode mudar de ideia?

Pode não conseguir?

Pode precisar de alguém?

Ou essa mulher ideal precisa dar conta de tudo, permanecer forte e ainda fazer parecer que não lhe custa nada?

Às vezes, passamos tanto tempo tentando alcançar uma versão ideal de nós mesmas que quase não conseguimos olhar para a mulher que realmente existe.

Com seus limites, desejos, contradições, conquistas e faltas.


Talvez você não precise simplesmente “se cobrar menos”

Dizer a alguém muito exigente consigo mesma que precisa “relaxar” ou “parar de se cobrar” parece simples.

Mas a cobrança pode ocupar uma função muito mais profunda.

Talvez acertar tenha sido uma maneira de receber reconhecimento. Talvez ser responsável tenha se tornado uma forma de garantir um lugar nas relações. Talvez decepcionar alguém ainda provoque uma culpa que parece maior do que a situação atual justificaria.

Por isso, a questão não é apenas eliminar a cobrança.

É compreender o que ela representa na sua história.

Quando começamos a perceber de onde vêm determinadas exigências, também podemos começar a perguntar se ainda queremos viver submetidas a elas.

Não para abandonar responsabilidades ou deixar de desejar crescer, mas para construir uma relação consigo em que existir não dependa de alcançar, todos os dias, uma versão impossível de si mesma.


E se você se reconheceu neste texto?

Se a sensação de nunca fazer o suficiente acompanha diferentes áreas da sua vida, talvez valha a pena olhar com mais atenção para essa experiência.

Não para encontrar uma resposta pronta sobre quem você é, mas para compreender como essa forma de se enxergar foi sendo construída e por que ela continua ocupando tanto espaço hoje.

A psicanálise oferece um espaço de escuta em que essas questões podem ser trabalhadas a partir da sua própria história, respeitando aquilo que é singular em você.


Dárley da Costa | Psicanalista Clínica

Atendimento psicanalítico online.


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Referências para aprofundamento

LEWKOVITCH, Andréa Di Pietro; GRIMBERG, Angélica Bastos de Freitas Rachid. A atualidade dos conceitos freudianos de eu ideal, Ideal do eu e supereu.

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914).

 
 
 

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