Por que preciso tanto da aprovação dos outros? A influência da relação com a mãe na vida adulta.
Uma reflexão psicanalítica sobre como os primeiros vínculos podem atravessar nossa autoestima, nossos limites e a maneira como construímos relacionamentos.

Você tem dificuldade de dizer não? Sente culpa quando escolhe aquilo que deseja? Fica angustiada quando alguém está chateado com você? Ou percebe que precisa ouvir dos outros que está fazendo a coisa certa para finalmente se sentir segura?
Às vezes, mesmo depois de adultas, continuamos buscando uma aprovação que parece nunca ser suficiente.
E nem sempre entendemos por quê.
A psicanálise nos convida a olhar para nossa história e para os primeiros vínculos que construímos. Entre eles, a relação com a mãe — ou com quem ocupou essa função de cuidado — pode ter um lugar importante.
Quando agradar parece necessário para ser amada
Uma criança depende daqueles que cuidam dela.
É nessas primeiras relações que começa a experimentar afeto, segurança, frustração, reconhecimento e limites.
Mas imagine uma menina que sente que é mais aceita quando corresponde às expectativas da mãe.
Quando concorda, recebe aprovação.
Quando escolhe diferente, percebe desapontamento.
Quando tenta se posicionar, pode encontrar críticas, controle ou desvalorização.
Pouco a pouco, ela pode aprender algo sem que ninguém precise dizer diretamente: “Para ser amada, preciso agradar.”
Isso não significa que toda mulher que busca aprovação teve uma relação difícil com a mãe, nem que a mãe seja responsável por todos os seus conflitos na vida adulta.
A história de cada pessoa é muito mais complexa.
Mas algumas experiências vividas nesses primeiros vínculos podem deixar marcas.
A menina cresce. A necessidade de aprovação também pode crescer com ela.
Na vida adulta, isso pode aparecer de formas que nem sempre percebemos.
Você quer dizer não, mas acaba dizendo sim.
Sabe que determinada situação está ultrapassando seus limites, mas tem medo de desagradar.
Pede desculpas mesmo quando não fez nada errado.
Precisa constantemente saber se o outro ainda gosta de você.
Aceita menos do que gostaria em um relacionamento porque a possibilidade de perder aquela pessoa parece pior.
E talvez pense: “Eu sei que não deveria agir assim. Então por que continuo fazendo?”
Essa é uma pergunta importante para a psicanálise. Porque compreender racionalmente um comportamento nem sempre é suficiente para deixar de repeti-lo. Nossa história não determina nosso destino, mas pode continuar aparecendo na maneira como construímos nossos vínculos.
Quando a dependência emocional aparece
A necessidade constante de validação também pode atravessar os relacionamentos afetivos.
O valor que a pessoa reconhece em si mesma pode começar a depender excessivamente da maneira como o outro responde.
Se o outro demonstra afeto, ela se sente segura.
Se ele se distancia, surge a angústia.
Se desaprova uma escolha, ela começa a duvidar de si mesma.
A questão não está simplesmente em desejar amor, cuidado ou reconhecimento. Todos precisamos de vínculos.
O sofrimento pode aparecer quando a aprovação do outro começa a ocupar um espaço tão grande que você encontra dificuldade para reconhecer aquilo que deseja, pensa ou necessita.
O que a psicanálise pode nos ajudar a compreender?
Desde Freud, a psicanálise atribui importância às primeiras relações e aos processos de identificação na constituição do sujeito.
Conceitos como narcisismo e Complexo de Édipo fazem parte desse esforço de compreender como construímos nossa identidade e nossa maneira de nos posicionar diante daqueles que amamos.
Mas não precisamos transformar esses conceitos em fórmulas.
Talvez eles sejam mais interessantes quando nos ajudam a fazer perguntas:
Que lugar aprendi que precisava ocupar para ser amada?
Quanto das minhas escolhas depende da aprovação do outro?
Por que estabelecer um limite desperta tanta culpa?
O que temo perder quando desagrado alguém?
Às vezes, aquilo que sabemos racionalmente não é suficiente para modificar aquilo que continuamos repetindo emocionalmente.
“Mas então a culpa é da minha mãe?”
Não.
Olhar para a relação materna não significa transformar a mãe na culpada por tudo.
Uma mãe também possui uma história.
Ela também foi filha. Também aprendeu formas de amar, cuidar, proteger e se relacionar a partir daquilo que viveu.
Alguns padrões podem inclusive atravessar gerações sem que as pessoas percebam conscientemente.
Em algumas famílias, por exemplo, uma filha pode assumir cedo demais a responsabilidade de cuidar emocionalmente da mãe, tornando-se sua confidente, protetora ou aquela que sente que precisa mantê-la bem.
Essa inversão de lugares é conhecida como parentificação — um tema amplo, que será aprofundado em outro artigo.
Compreender nossa história não é procurar alguém para culpar.
É tentar perceber o que dessa história ainda continua se repetindo em nós.
É possível construir relações diferentes?
Talvez você já tenha ouvido:
“É só aprender a dizer não.”
“Pare de se importar com o que os outros pensam.”
“Você precisa se colocar em primeiro lugar.”
Mas, quando existe uma história por trás desses comportamentos, raramente é tão simples.
Se dizer não desperta culpa, talvez seja importante compreender essa culpa.
Se desagradar alguém provoca medo de rejeição, talvez exista algo nesse medo que precise ser escutado.
Se você percebe que sempre ocupa o lugar de quem cuida, cede ou tenta salvar o outro, talvez valha perguntar: "Por que esse lugar se tornou tão familiar para mim?"
A psicanálise não procura simplesmente ensinar uma pessoa a parar de repetir.
Ela oferece um espaço para compreender por que aquilo continua se repetindo.
E quando começamos a compreender nossa própria história, também podemos começar a construir novas maneiras de nos relacionar.
E se você se reconheceu neste texto?
Talvez algumas dessas situações façam parte da sua história: a dificuldade de dizer não, o medo de decepcionar, a necessidade de aprovação ou a sensação de precisar sempre corresponder às expectativas dos outros.
A psicanálise pode oferecer um espaço de escuta para compreender de onde vêm esses padrões e o lugar que eles ocupam hoje em suas relações.
Dárley da Costa | Psicanalista Clínica
Atendimento psicanalítico online.
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