Mutismo seletivo: quando o silêncio também comunica
Atualizado: 1 de set.
Uma leitura psicanalítica sobre o que pode existir por trás da dificuldade de falar em determinadas situações.

Há pessoas que conversam normalmente em casa, com familiares ou em ambientes nos quais se sentem seguras, mas que, diante de determinadas pessoas ou situações, simplesmente não conseguem falar.
Para quem observa de fora, esse silêncio pode ser confundido com timidez, resistência, falta de educação ou até mesmo com uma escolha: “Ela não quer falar”.
Mas nem sempre é assim.
Às vezes, a questão não é não querer falar. É não conseguir falar naquele momento.
E quando olhamos para esse fenômeno a partir de uma perspectiva psicanalítica, surge uma pergunta importante:
O que esse silêncio pode estar comunicando quando as palavras não conseguem aparecer?
O que é o mutismo seletivo?
O mutismo seletivo envolve uma dificuldade persistente de falar em determinadas situações, apesar de a pessoa conseguir se comunicar verbalmente em outros contextos.
Isso significa que não estamos necessariamente diante de uma incapacidade global de comunicação.
Existe uma diferença importante entre não possuir a capacidade de falar e perceber que, em determinadas circunstâncias, a fala parece ficar bloqueada.
Por isso, reduzir essa manifestação simplesmente à “timidez excessiva” pode impedir que se perceba o sofrimento que existe por trás dela.
Cada pessoa possui uma história.
E cada silêncio também precisa ser compreendido dentro dessa história.
O silêncio nem sempre significa ausência
Estamos acostumados a associar comunicação à palavra.
Mas será que só comunicamos quando falamos?
O corpo comunica.
O olhar comunica.
Os gestos comunicam.
A maneira como nos aproximamos ou nos afastamos também comunica.
E o silêncio pode comunicar.
Na perspectiva psicanalítica, um sintoma não é observado apenas como algo que precisa desaparecer. Existe também o interesse em compreender qual lugar aquela manifestação ocupa na vida daquela pessoa.
Por isso, diante de alguém que não consegue falar em determinadas situações, talvez uma das perguntas mais importantes não seja:
“Como fazer essa pessoa falar?”
Mas:
“O que acontece com ela quando falar se torna tão difícil?”
Essa mudança de olhar faz diferença.
Quando falar parece perigoso
Imagine uma criança que, repetidamente, é interrompida, corrigida, ridicularizada ou desvalorizada quando tenta se expressar.
Ou alguém que aprendeu, ao longo de sua história, que demonstrar determinados sentimentos pode gerar críticas, rejeição ou constrangimento.
Isso não significa que experiências assim necessariamente provocarão mutismo seletivo.
Mas ajuda a compreender um princípio importante: aquilo que para uma pessoa parece pequeno pode assumir um significado muito diferente para outra.
A experiência emocional é singular.
Críticas constantes, exigências excessivas, ausência de validação afetiva e outras experiências relacionais podem deixar marcas na maneira como alguém passa a se posicionar diante do outro.
Em algumas situações, calar pode tornar-se uma maneira de se proteger.
Trauma não é apenas aquilo que parece grave para quem observa
Quando ouvimos a palavra “trauma”, geralmente pensamos em acontecimentos extremos.
Mas, para a psicanálise, não importa apenas aquilo que aconteceu externamente. Também importa como determinada experiência foi vivida e significada pelo sujeito.
Duas pessoas podem atravessar situações semelhantes e serem afetadas de maneiras completamente diferentes.
Isso acontece porque não somos constituídos apenas pelos acontecimentos da nossa história, mas também pela maneira como conseguimos — ou não — elaborar emocionalmente aquilo que vivemos.
Por isso, compreender o sofrimento de alguém exige cuidado para não comparar histórias.
A pergunta não deve ser apenas:
“Foi grave?”
Também precisamos considerar:
“Como isso foi vivido por essa pessoa?”
Quando o silêncio se torna proteção
Em determinadas situações, a pessoa pode experimentar tanta ansiedade, medo, vergonha ou sensação de exposição que falar se torna extremamente difícil.
Nesse sentido, o silêncio pode funcionar como uma forma de proteção.
Não porque exista necessariamente uma decisão consciente de permanecer calado.
Ao contrário.
A própria pessoa pode desejar falar e, ainda assim, sentir que naquele momento simplesmente não consegue.
É justamente por isso que frases como:
“Fala logo.”
“Não precisa ter vergonha.”
“Você fala normalmente em casa.”
“Por que está fazendo isso?”
podem aumentar ainda mais a sensação de exposição.
Quando existe sofrimento relacionado à fala, pressionar nem sempre facilita a comunicação.
Às vezes, aumenta a angústia.
Escutar também é respeitar o tempo do outro
Diante da dificuldade de falar, a resposta não deve ser simplesmente aumentar a pressão para que a pessoa se expresse.
Uma escuta cuidadosa parte de outro lugar: do respeito pelo tempo, pela história e pela singularidade de cada pessoa.
Isso não significa ignorar o sofrimento ou deixar de buscar acompanhamento profissional quando necessário.
Significa compreender que, antes de tentar eliminar aquilo que aparece como sintoma, é importante investigar o que está acontecendo e quais fatores podem estar envolvidos.
Às vezes, oferecer segurança é mais importante do que exigir palavras.
Quando procurar ajuda?
Quando a dificuldade de falar começa a provocar sofrimento ou interferir de maneira significativa na vida escolar, familiar, profissional ou social, é importante buscar avaliação profissional.
Especialmente no caso de crianças e adolescentes, a compreensão do quadro pode envolver diferentes profissionais, de acordo com as necessidades identificadas.
Não é recomendável estabelecer uma causa apenas a partir do comportamento observado.
Cada história precisa ser escutada em sua singularidade.
Entre o silêncio e a possibilidade de falar
Nem todo silêncio é vazio.
Alguns silêncios carregam medo.
Outros carregam vergonha.
Há silêncios que protegem.
E existem experiências para as quais ainda não encontramos palavras.
A psicanálise nos convida a não olhar apenas para aquilo que uma pessoa apresenta externamente, mas também a considerar o significado que determinada manifestação pode assumir dentro de sua história.
Talvez, antes de perguntar por que alguém não fala, possamos começar perguntando:
O que precisamos oferecer para que essa pessoa se sinta segura o suficiente para encontrar sua própria voz?
Porque algumas palavras não precisam ser arrancadas.
Elas precisam encontrar um lugar seguro para poder surgir.
Um espaço para ser escutado
Nem sempre conseguimos compreender sozinhos por que determinadas situações, sentimentos ou relações nos afetam tanto.
O processo psicanalítico oferece um espaço de escuta para que você possa falar sobre sua história, seus conflitos e aquilo que, muitas vezes, ainda é difícil colocar em palavras.
Dárley da Costa | Psicanalista Clínica
Atendimento psicanalítico online.



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